Rolando Massinha, um cozinheiro metido a besta, como ele mesmo se define

Posted by on mar 18, 2014 in Entrevistas | 0 comments

O Brasil é um país de grande variedade em sabores, pessoas e cultura.

Talvez por isso afirmam que a comida de rua é o cartão de visita de uma cidade, sendo assim, Rolando Vanucci – o Rolando Massinha -, é hoje o embaixador herói da comida de rua.

Rolando é pernambucano, marido, pai, e um empreendedor guerreiro que criou com muito suor, e acima de tudo crença e fé, dentro de uma velha Kombi, a cantina Rolando Massinha.

E todas as noites, desde 2007, Rolando estaciona o veículo na Avenida Sumaré e é lá que serve comida italiana (sua especialidade são as massas frescas servidas com molhos caprichados) com preço acessível aos seus inúmeros fãs.

Recentemente Rolando virou tema de livro e ganhou filiais como o Rolando Doguinho, especializado em cachorro-quente e estacionado em frente ao Shopping Vila Olímpia, e o Rolando Churrinho, também na Avenida Sumaré, para vender churro.

Rolando

Marquei a entrevista, com Rolando, as 18h de uma segunda-feira de pré-carnaval. Ao chegar na Avenida Sumaré descobri que nesse mesmo dia e horário, Rolando estava gravando uma matéria com a equipe da TV Gazeta no Rolando Doguinho da Vila Olímpia.

Como eu teria que esperar, aproveitei para conhecer sua equipe.

A primeira foi Gabriela Federici. Gabi como é chamada por todos é uma garota pra lá de especial. Ela sofre de uma doença rara, a síndrome de Rubinstein-Taybi (um distúrbio associado a uma anomalia no cromossomo 16), mas venceu a deficiência e pensa em cursar gastronomia e se tornar a nova chef do pedaço. Gabi me contou ainda que conquistou seu trabalho, e consequentemente Rolando, com o seu  sorriso. E assim, há 5 anos e 5 meses ela diverte os antigos e novos freqüentadores servindo uma massa com molho especial , e claro, o seu sorriso.

Jeferson há sete meses aprendeu as diferenças entre mezzaluna e tortelli. Ele saiu do lava rápido em que trabalhava e se juntou a equipe do Rolando Massinha.

Leo, apesar da pouca idade já sabe bem o que quer. Começou a cursar gastronomia e decidiu alçar vôo para Argentina assim que terminar a faculdade.

Eduardo é o mais novo, no entanto, o mais experiente da trupe. Pra minha sorte, ele fica na Kombi do Rolando Churrinho, que na data da minha visita oferecia churros, gratuitamente para degustação, nos sabores de: pistache, chiclete, doce de leite com nozes, limão siciliano e frutas vermelhas. Adivinhem quantos eu provei?

Quase 20h e debaixo de muita chuva, Rolando chega. Nas duas Kombis ali estacionadas foi aquela alegria, todos os clientes paravam de comer para cumprimentá- lo e até ganhar um afetuoso abraço.

Com seu jeitão simples ele vestia calça jeans, camisa polo e um chinelo havaiana sendo um pé de cada cor. Essa entrevista de Rolando Massinha é comovente. Em alguns momentos, ele chora ao relembrar de todas as dificuldades que viveu. Faz um balanço da sua vida profissional e critica o duro jogo de interesses do mercado da comida de rua.

Leia abaixo a entrevista com Rolando Vanucci, popularmente conhecido como Rolando Massinha.

W - Quem é Rolando Vanucci?
R.V - Um cara simples, simples e simples.

W - Depois de ter se reinventado de tantos modos porque decidiu pela gastronomia? Quem o influenciou?
R.V - Ninguém. Isso tudo foi a minha vontade de parar num restaurante e comer um bolonhesa com tempero, esse desejo que me atiçou e influenciou a começar.

W - Qual sua maior contribuição à gastronomia brasileira?
R.V - Essa pergunta é assustadora, mas não acho que eu tenha contribuído. O que o Rolando faz, nada mais é do que sua obrigação em atender bem. Agora quem contribui se chama Alex Atala. Esse cara sim, mudou e colocou a nossa gastronomia lá fora.

W - Como você se sente agora que a comida de rua foi legalizada em São Paulo? Acredita que a futura concorrência terá saldo positivo?
R.V - Não existe concorrência para nenhum negócio. Existe competência e necessidade de você sair todo dia para trabalhar e fazer a diferença. Tem uma pegada e gente que faz e vende a mesmice. No entanto, se o cara tem um atendimento impecável e te abraça e te chama pelo nome, você vai freqüentar lá mesmo que seja para comer pedra ensopada. É isso, o ser humano que ser bem atendido e comer para ficar feliz. Aliás tem um cara, Fernando Collor de Mello,  que disse uma frase que é a única contribuição boa que ele deixou, “… não tem competência não se estabelece.”

W - Qual a sua culinária preferida?
R.V - Primeiro de tudo: um arroz com colorau, um feijãozinho no coentro e um ovo que minha mãe fazia. [Ao se lembrar da mãe Rolando se emociona e não impede que as lágrimas caiam]
Depois, claro, eu gosto da comida italiana e da tailandesa que tem essa mistura divina do agridoce. Eu gosto tanto dessa mistura que no meu novo negócio, o espetinho , vou servir o satay  (espetinhos de origem malaia ou indonésia, que consiste de carne temperada e grelhada em espetos de madeira, e servida normalmente com molho de amendoim).

W - Sua filha, Isabella, vai seguir os passos do pai e se aventurar na gastronomia?
R.V – Não acredito. Minha filha puxou muito o pai no sentido de ser largada, despreocupada e de não gostar de responsabilidades.

W - O que Rolando Massinha não come de jeito nenhum?
R.V – Eu sempre comi muito, na casa da minha avó Maria, um espaguete com sardinha. Já hoje eu não posso nem ver essa mistura. Também comia muito no Mercadão de Belo Horizonte o fígado acebolado, e hoje também não consigo comer.

W - Qual o prato mais gostoso que você já fez?
R.V – Acho que o prato mais gostoso que eu já fiz, foi o prato para matar a fome. [Novamente Rolando se emociona e por um bom tempo as lágrimas escorrem pelo rosto]

W - Como foi a experiência de escrever o primeiro livro?
R.V – Ainda não caiu a ficha. Eu gostaria que ele viesse para quem poder ler, passar adiante. Pois a todo momento e toda hora você consegue se levantar, se re-eguer. Tomara que alguém que o leia saiba tirar algum proveito dele. Para mim a coisa mais gostosa é quando eu relato as pequenas histórias do meu pai e da minha mãe, histórias da minha vida e da minha esposa que foi contrária a isso aqui (aponta para a Kombi do Rolando Massinha, estacionada ao nosso lado) em todo momento. Aliás, eu não falei 1/3 da minha esposa que é taurina e super reservada.

W - Alguma outra novidade além do Rolando Doguinho e do Rolando Churrinho?
R.V – Ta vindo aí o Rolando Kebab, Rolando Pastelzinho, Rolando Crepe, Rolando Espetinho. Ao todo vão ser 7 ou 8 kombis e provavelmente eu pare por aí. Até porque eu tenho uma proposta para ser presidente da Associação de Comida de Rua, e isso sempre foi uma coisa que eu relutei muito, desde que montamos essa associação e eu nunca quis nem o cargo de conselheiro. Mas eu vou entrar para provar que mesmo sendo presidente é possível que você faça benfeitoria para todos, sem nenhum exceção. Eu sou um cara apolítico e nesse meio é muito ego, até acho que as pessoas se divertem fazendo comida, mas na maioria, infelizmente a vaidade é o que sobressai.

W - Rolando Vanucci é mais cozinheiro ou comerciante?
R.V -  Nunca ninguém me perguntou isso, primeiramente me coloco como cozinheiro metido a besta. E metido a besta porque eu não fiz curso mas tenho um paladar aguçado. E deve isso que transpasse para minhas criações, os meus pratos. E eu acho que sou um puta comerciante. Depois de sete anos eu posso dizer que aprendi a vender meu peixe. E como eu já te falei, da minha comida alguns irão gostar, alguns acharão mais ou menos e outras não vão gostar, mas o modo como eu atendo (e também a minha equipe durante minha ausência) , é o que faz toda a diferença.

Rolando Massinha11Com o exemplar do seu livro: Rolando Massinha: Uma História de Vida com Receitas de Amor

Fotos: Divulgação

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